Faz uns dois meses que li o livro “Marylin e JFK” e, por lapso talvez, deixei de comentá-lo. Agora, com a notícia da mega exposição de fotos da estrela que será exibida no Brasil em 2011, me animei a fazê-lo.O fato é que o livro, escritor pelo francês François Forestier lança uma luz sobre os dois mitos e, praticamente, desmistifica a figura de ambos. Detona, fosse a palavra mais adequada.
Logo na introdução o escritor mostra a que veio: “Para iluminar um pouco tanta escuridão, foram necessários uma sólida documentação e um defeito crucial: uma má índole. Eu tenho”, diz Forestier.
De fato, ele expõe o lado, digamos, mais podre do reino dos Kennedys e o mais triste de Marilyn. Só mesmo um francês para ter coragem de derrubar, com um só golpe, duas das figuras mais adoradas e cultuadas não só pelos americanos mas também pelos brasileiros e boa parte da Europa.
O relato da história de amor entre o maior símbolo sexual de Hollywood e o ex-presidente americano revela a paixão da musa e faz questão de desmistificar a aura de bom moço do presidente americano. Por trás da loira fatal, uma pobre moça ninfomaníaca, viciada em drogas, que administra suas relações íntimas com cuidado e sinceridade. Sob a máscara do jovem presidente bronzeado e popular, a obsessão pelo sexo, a avareza, o egocentrismo e a vaidade.
Ele era adorado por sua simpatia, destemor e saudável bronzeado, mas não passava de um homem egoísta, constantemente doente e maníaco sexual. Ela era amada pela estonteante beleza, carisma e sex-appeal, mas era uma mulher depressiva, viciada em remédios e de higiene quase inexistente. Em um dos trechos do livro, o amigo e ex-affair de Marilyn, Frank Sinatra, comenta sobre o fato com amigos dizendo que era insuportável ficar com a atriz: ela não gostava de tomar banho e vivia com as unhas sujas. Sem dúvida um golpe no sentimento de tantos fãs da estrela, imaginar a loura estonteante com, digamos, um cheiro desagradável.
Fora este detalhe, digamos escatológico, a narrativa discorre sobre os seis anos de relacionamento entre o maior símbolo sexual dos Estados Unidos e o senador que se tornou presidente tem cenas de um verdadeiro thriller policial. O caso não se tornou público por conta de precauções da imprensa, mas um farto material foi coletado pela espionagem da máfia, FBI e da inimiga KGB. Afinal, a América vivia a insanidade da Guerra Fria, o que justificava o voyeurismo do Estado, as chantagens, manipulações, eleições compradas e dinheiro ilícito.
O veneno do escritor transborda em quase todas as páginas, na construção do retrato de um casal doentio. Nascida Norma Jeane, Marilyn era uma manipuladora da piedade. Conhecida por comédias memoráveis como Quanto Mais Quente Melhor, ela era, na verdade, segundo Forestier, uma atriz egoísta, que não se importava com os colegas. Utilizava o sexo como forma de conquista, habitualmente acordando em lençóis estranhos. Também era viciada em álcool e remédios, que criavam um sono artificial e um universo fictício, que a levaram à morte.
Talhado para ser presidente da República pelo pai, Joe Kennedy, ele mesmo um homem racista e afundado em negócios sujos, John era um político que se esquivava de problemas importantes e se concentrava nas mulheres, inúmeras, que frequentavam sua cama, para sexo de, no máximo, 15 minutos. Terminou assassinado, caindo no colo da primeira-dama, Jacqueline, que suportava o adultério em troca da fama.
Havia um consenso: a vida privada do presidente estava além dos limites. Mas, como Kennedy conseguia governar o país, é um mistério. Como vivia doente, ele funcionava adequadamente apenas algumas horas por dia, tirando uma soneca às tardes e divertidas sestas à noite… Alguém disse que JFK gastou metade do seu tempo perseguindo as mulheres, e a outra metade pensando nisso.
Marilyn também não era profissional, deixava a equipe de filmagem esperando, não decorava suas falas e era totalmente inacessível. Não tinha respeito pelos colegas de trabalho. Fez também estranhas exigências para a Twentieth Century Fox e, quando se tornou produtora, foi péssima. Sua inteligência era um mito. Além disso, ela era mentalmente insana e, como atriz, logo decaiu. Um dos maiores temores de Marilyn era acabar internada em uma clínica para doentes mentais, como sua mãe.
Forestier retrata Kennedy como homem cuja moralidade era inexistente cuja criação havia lhe ensinado que o dinheiro podia comprar tudo. O pai do ex-presidente era simpatizante do nazismo, além de gângster. Ele legou valores desvirtuados aos filhos. E suas filhas não eram nada. Quanto à morte do JFK, o escritor diz que houve uma diabólica aliança entre os exilados
Os relatos sobre as festas na Casa Branca deixam qualquer pessoa de cabelos em pé. Como a primeira dama vivia fora, o presidente aproveitava para passar as tardes na piscina cercado de mulheres e bebida. Diante disto o escândalo Clinton-Lewinsky vira brincadeira de criança.
Um dos pontos altos é a narrativa detalhada da festa de 45 anos de JFK, aquela em que Marilyn cantou “feliz aniversário, senhor presidente” com uma voz libidinosa e roupa transparente, diante do público que lotava o Madison Square Garden, de Nova York. Num dado momento, o vestido de tecido finíssimo, costurado diretamente em seu corpo – por exigência da atriz -, começa a se romper. E ela estava sem nada por baixo para deleite da platéia. O aniversariante teria exclamado: “Que bunda! Que bunda!”. Foi a última vez que se viram. Jackie, no limite, deu um ultimato ao marido. Os jornalistas que haviam feito a cobertura da festa tiveram seu material apreendido. O último negativo que sobrou é da fotografia da capa do livro de Forestier, em que, nas sombras, Marilyn está entre os irmãos Kennedy.
Em maio daquele ano, 1962, o presidente decidiu se afastar da amante. O cunhado de JFK, Peter Lawford, que sempre agenciou mulheres para ele, deu a Marilyn a notícia de que o caso acabara definitivamente. Ela mergulhou ainda mais em bebida, mais precisamente em champanhe Cristal, sua bebida favorita, e muitas anfetaminas. Teve mais uma overdose. Em um desses momentos de loucura, uma cena do livro embrulha o estômago. Foi em Las Vegas quando o dono do cassino – e amigo de Frank Sinatra, ao saber da confusão de Marilyn sob efeito de drogas e champanhe invade o quarto e manda seus capangas estuprarem a diva, a esta altura totalmente desacordada.
Nesse meio tempo, Marilyn teria tido caso com o irmão do presidente, Bob, que caiu de amores pela estrela. A capa do livro, onde Marilyn está entre os dois irmãos é uma insinuação quase explícita do fato. Como se vê, não foi exatamente glamurosa a vida da estrela, e Kennedy estava longe da perfeição de homem como todos acreditavam.
Mas como o culto às celebridades é quase um vício no Brasil, a exposição deverá ser um sucesso. E tem até o aval do Ministério da Cultura para que os produtores captarem 1,5 milhão de reais via Lei Rouanet. Acho que a gente passaria muito bem sem isto.

1 comentário
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julho 9, 2011 às 2:28
Nossa, que coisa horrível! Estou aos poucos, com a maturidade, abrindo minha mente e meus olhos para esta loucura que venerar pessoas que não conhecemos, que pode ser qualquer coisa através dos "olhos" da mídia de massa, quando pessoas reais à nossa volta, são esquecidas por nós! Quando quem merece ser admirado é o trabalhador médio brasileiro que sobrevive com um salário de fome e se encontra dinheiro que não é dele, devolve! Somos loucos? Que Deus nos ajude! Obrigada pela sua contribuição!