Existem coisas que a gente pensa só acontece com os outros. Boas ou ruins, não importa o que seja. Claro que quando nos deparamos com algo sensacional, normalmente nos perguntamos: é comigo mesmo? Foi exatamente essa frase que pronunciei quando aquele homem lindo, de olhos azuis, corpo atlético e tão alto que eu mal podia alcançá-lo da cadeira onde estava chegou perto de mim e disse: “Posso me apresentar?”. Olhei para as três amigas, todas jovens e lindas, ao meu lado e disse:”Não é comigo, é com vocês!”. Ele falando uma mistura de italiano e espanhol insistiu, era comigo mesmo. Tudo bem que num lugar como aquele, o restaurante do famoso hotel Costes em Paris, só havia gente bonita, mas daí pensar que um Deus como aquele fosse me abordar já era demais.
As amigas, todas brasileiras, disseram em uníssono: “É com você mesma, arrasa amiga!” O tal Deus foi logo pedindo desculpas, dizendo que não costumava fazer aquilo, mas havia passado a noite me olhando e nunca vira uma mulher tão bela. Em seguida desfilou suas credenciais: médico, mais precisamente neurocirurgião, italiano de nascimento, estava em Paris para Congresso médico há dois dias e estava hospedado no Ritz. Ah! E que eu não me preocupasse em falar outro idioma, ele entendia português muito bem. Tudo bem que eu havia caprichado no layout naquele dia, afinal não é sempre que se tem oportunidade de ir a um lugar badalado e chique como aquele. Mesmo assim, achei melhor ficar com pé atrás.
Depois de algum tempo de conversa ele convidou para um último drinque. Sugira, ele propôs. Ato contínuo, e para verificar até onde era verdade o que dizia sugerí – o Ritz, onde podíamos inclusive ir caminhando. Afinal não dá pra entrar num carro com desconhecido, nem em Paris, pensei.
Fomos andando até o hotel, considerado a meca dos milionários do mundo todo. Na recepção ele pediu que o porteiro abrisse uma sala especial. Notei, apesar de não falar francês, que o recepcionista hesitava em fazê-lo pois seu nome não constava na lista de hóspedes. Ele então disse que estava no apartamento com outro colega médico, deu um gorjeta e logo me vi adentrando por corredores majestosos, passando por salas imensas e finamente decoradas até chegar ao local indicado: uma espécie de jardim de inverno com escultura gigante e fonte por onde corria água mansa por entre folhagens e orquídeas de todas as qualidades. Sentamos numa mesinha, ele pediu dois cafés e ficamos conversando cerca de meia hora. Ele se comportou como um gentleman e não insistiu quando disse que queria ir embora. Ele assentiu e disse que também teria palestra logo cedo. Chamou um taxi e, gentilmente, acompanhou-me até o hotel onde despediu-se prometendo ligar no dia seguinte para me ver novamente. Fui dormir sem acreditar no que tinha acontecido. Não quis pensar mais no assunto, embora olhasse o tempo todo pro celular. Era meu último dia na cidade, infelizmente. Na hora marcada ele ligou e pediu pra ir ao hotel me encontrar o que, claro, concordei de pronto.
Marcamos no café ao lado e, minutos antes ele ligou novamente mas pra dizer que se atrasaria quinze minutos. Meu Deus, o homem é mesmo um gentleman, pensei. Ao avistá-lo, calça e camisa solta, ambos de uma brancura imaculada, chapéu panamá na cabeça, óculos escuros e mocassim, pensei tratar-se de uma visão. Ele era ainda mais bonito e charmoso à luz do dia.
No cartão que havia me entregue na noite anterior notei que abaixo do nome, estava escrito:músico e o nome da gravadora. Depois de pedir um café e acender um cigarro perguntei: “Mas você não disse que era médico?”. Ele tirou os óculos e me olhou fundo com seus olhos azuis para dizer com leve rubor: Além de médico sou músico. E contou-me que estava querendo deixar definitivamente a medicina por conta da sua paixão, a música. ´Conversamos um pouco e logo anunciei minha saída para o aeroporto. Inconformado, insistiu em me acompanhar até o Charles De Gaulle. No caminho falou da sua vida na Itália, da mamma recentemente falecida, da faculdade na Alemanha, da casa em Ibiza onde ficava parte do ano e do apartamento em Miami, onde ficava a maior parte do tempo. Nunca mais nos veremos, pensei. Ele pareceu adivinhar meus pensamentos e foi logo escrevendo sua agenda com as datas em que estaria nos dois lugares. Passagem e hospedagem não eram problemas, eu poderia ir e até levar alguma amiga ou mesmo os filhos. A casa era grande e ele adorava cozinhar. “Farei umas pastas para você engordar um pouco, minha bela”. Sim, porque segundo ele, eu estava magra demais e deveria ganhar pelo menos uns cinco quilos. Era mesmo um homem inacreditável. No aeroporto ele foi gentil mais uma vez, carregou a bagagem, esperou no check in e despediu de mim com leve beijo na face: “Espero você, bela”.
Nem bem desembarquei no Brasil ele ligou no meu celular pra saber se havia chegado bem. Definitivamente não dava pra acreditar! Quando contei às amigas elas ficaram maravilhadas. Meu amigo Zé, descolado e viajado que só, duvidou de tanto charme. “Pode ser picareta”. Outros dois amigos também não levaram fé. Para Henrique ele podia ser contrabandista de órgãos (daí o pedido para engordar e facilitar a cirurgia), para Pedrinho ele era traficante de drogas e queria conexão no Brasil. Só as mulheres, românticas por natureza, não colocavam dúvida. “Está duvidando da sua capacidade de atrair um homem?”, diziam. Eu mesma cheguei a perguntar à ele qual o seu interesse numa mulher, pouco mais velha que ele, classe média de um país da América Latina. “Não se menospreze, bella”, você é a mulher mais encantadora que já conheci. Ah! E tudo isto pra dizer que passou a vida estudando e, agora aos 46 anos e depois da perda da mãe, percebeu que precisava de companhia, não queria mais envelhecer sozinho.
Vieram outros telefonemas, românticos, sedutores. E vieram emails também. Até que resolvi tirar a prova: disse que gostaria de visitá-lo em Miami. Mas a época não era boa, segundo ele. A agenda estava lotada de concertos em vários lugares. Com tempo, desencanei.
Não respondi mais os emails e nem a última ligação. Algo não estava cheirando bem. Ou como dizia minha amiga, Luciana, parodiando famosa marchinha: “Laranja madura na beira da estrada, ta bichada ou tem marimbondo no pé”.
E tinha. Dez meses depois desse romântico e inverossímil encontro, recebo email com história mais inverossímil ainda. Ele, o Deus, havia sido roubado na Nigéria, estava sem dinheiro, cartãoes e documentos, preso no hotel com gente perigosa ao seu encalço e pedia encarecidamente que eu enviasse 1,500 euros para a conta num determinado banco. O email, pela primeira vez, veio em inglês. Presumo tenha mandado o mesmo pra muita gente. Se alguém cair é lucro.
É, tem coisa que não dá mesmo pra acreditar. Muito menos Deuses médicos, músicos, italianos, cozinheiros e que ainda adoram mulheres cheinhas. Alguém se habilita?
maio 1, 2010

2 comentários
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maio 2, 2010 às 1:43
Que barato de estória !!!!! Mas eu assisti umaentrevista no Happy Hour ,onde uma moça dizia a Astrid ,uma estória parecidissíma com essa,ele era médico,naõ sei erum DEUS ,mas também estava na Nigéria ,a serviçoa e outras coisas que não lembro agora !!!!! Que coisa eh????? O ser humano esta a um passodedecadencia total mesmoooooo !!!!!! Beijossssssss ,
Aninha El Daher
maio 3, 2010 às 10:24
Tereza, você bem que merece um Apolo milionário e hospede no Ritz. Essa possibilidade, porém, é mais comum nos filmes de Hollywood e com música de fundo. Minha tese de conexão de droga tem sentido, já que o cara está encrencado na Nigéria, onde não tem nada para um médico de Miami fazer e menos ainda um música diletante. O lado bom é que inspira o roteiro de um filme, que você poderá desenvolver a partir dai. No tal filme, seus amigos solidários bancariam sua ida à Lagos, onde o Apolo a receberia no seu bordel – com a desculpa que o bordel era de um amigo – e, decepcionado por você não ter os 1.500 euros tentaria transformá-la em escrava sexual. Essa ameaça só não foi concrettizada porque você conseguiu se safar com ajuda do embaixador brasileiro. É ai que começa o seu drama e toda a aventura do filme….. Hein? Outra versão poderia ser novelada se você tivesse entrado naquele taxi em París. Que tal? Você, o motorista cumplice e o Apolo. Mas o capítulo Nigeria é enriquecedor, continente da Copa e etc. Vai por ai. Bjs. Pedro-