Ao assistir “A single man” (que tem o horrível e inapropriado titulo de “Direito de Amar”, em português) o estilista Tom Ford prova que não sabe apenas criar moda. Ele sabe também dirigir filmes de forma magistral. Sei que muita gente torceu o nariz ao saber que o talentoso estilista estava lançando um filme – motivo que o levou a manter a produção sob segredo, para não ser visto apenas como “um fashion designer que decidiu se tornar cineasta”. Mas o resultado do filme, adaptado do livro Um Homem Só – Flagrante de uma Profunda Solidão, de Christopher Isherwood, é de uma beleza e um rigor estético impressionantes. No papel de George, um professor gay na primeira metade da década de cinqüenta, que perde o companheiro de quase duas décadas num acidente de carro e pensa em se suicidar, o excelente Colin Firth ganhou o Leão de Ouro em Veneza como melhor ator e sua primeira indicação ao Oscar.
Ford mostrou-se um bom diretor de atores – as atuações não apenas de Firth, mas também de Julianne Moore como uma amiga solteira que ainda guarda sentimentos por George, e da revelação de Nicholas Hoult (o menino de Um Grande Garoto, crescido) como um aluno interessado em ajudar seu professor, são cobertas de intensidade sutil (a cena em que George recebe o fatídico telefonema que o comunica da morte de seu parceiro – e de que não é bem vindo no funeral – é um momento magistrais da atuação de Firth). Mas, acima de tudo, Ford revela-se um cineasta com um rigor estético intenso. Essa seja talvez sua maior contribuição, enquanto designer de moda, para o seu lado autoral: a impecabilidade de cada cenário, objeto de cena ou figurino, uma beleza quase opressora.
Enquanto George, o protagonista vivido por Firth, enfrenta sua depressão com uma fotografia em tons esmaecidos, ao ser confrontado com uma imagem ou um cheiro – seja um penteado, uma flor, um perfume – as cores subitamente esquentam, tornando-se vivas e intensas. Indiscutivelmente o diretor é um esteta com uma rara preocupação pela intensidade sensorial da imagem na tentativa – exitosa -de transmitir visualmente o prazer oculto nos detalhes de uma vida cotidiana. Claro que, no que tange à moda, os figurinos, como era de se esperar, são igualmente impecáveis. Nada nem ninguém aparece em desalinho com sua proposta estética. Mas o filme vai muito além da beleza pura e simples. É sobretudo uma ode ao naturalismo, à sensibilidade e ao silêncio – aquele cujas palavras soariam não só desnecessárias mas incômodas.
Vale dizer ainda que a escolha do ator inglês, Firth, faz toda a diferença o ator está mais velho e mais bonito). Mas com certeza, Ford sabia muito bem disto ao escolhê-lo. Espera-se, apenas, que seu próximo filme ganhe das distribuidoras nacionais um título mais condizente com tanto bom-gosto.

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