Volta e meia alguma revista, jornal, programa de TV traz reportagem ou artigo sobre depressão. Como o assunto provoca debates, médicos, psiquiatras, psicólogos e leigos são procurados para opinar sobre o tema. Isto porque a doença, sim é uma doença, atinge milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil vem aumentando significantemente o número de pessoas, adultos, jovens e até crianças. E nem adianta falar em estatísticas, porque muitos que sofrem a doença não falam ou sequer sabem que aquela angústia freqüente, aquela indiferença a tudo e a todos, pode ser o primeiro passo para o diagnóstico.
Como disse, nessas matérias, as pessoas falam sobre depressão, seja de forma científica ou não. Algumas delas dão conselhos, pistas para o diagnóstico e às vezes as próprias vítimas da doença fazem relatos de episódios onde literalmente estiveram no fundo do poço.
No entanto, por mais que o tema depressão esteja na mídia, de forma muitas vezes esclarecedora, sinto que a doença ainda é um tabu para a maioria das pessoas. Ter depressão, não raro, é até motivo de preconceito. Conheço pessoas, amigas, que escondem a doença de todos com quem convive. Durante períodos onde a doença não dá trégua nem por um instante, ela se refugia no quarto como única forma de se preservar. Isto porque as pessoas não aceitam a depressão como doença. Há quem diga até frases ridículas como: “Não tenho tempo para me deprimir”; “Isso é frescura de gente que não tem o que fazer”; “É só fazer uma visita a algum hospital e ver o que é sofrimento de verdade”. Essas são opiniões muito comuns, corriqueiras. E mostra o quanto de desinformação ainda existe sobre a doença.
Ou alguém imagina, em são consciência, que o depressivo busca a sua dor de livre e espontânea vontade? Que ele prefere ficar deitado dias a fio num quarto escuro enquanto a vida corre lá fora? Que ele sente prazer em ver o quanto seu estado físico e emocional deixa as pessoas que mais ama totalmente impotentes? Quem pensa dessa forma está, de alguma forma, tentando colocar (mais) culpa na mente de quem já se sente miseravelmente culpado.
Também conheço essa terrível doença. Há anos convivo com ela e posso garantir que a convivência não é tranqüila. No início do meu diagnóstico ouvi um paciente dizer ao médico: “Doutor não dá pra trocar a depressão por um câncer?”. Sei que a primeira vista isto parece terrível, afinal o câncer é uma doença que devasta literalmente o ser humano. Mas a pergunta feita pelo desesperado paciente não é por acaso, e não se trata de uma simples troca. O deprimido sabe que além de tudo sua doença é um incômodo. E um dos motivos principais é que ela não é visível, salvo o fato de ficarmos apáticos, tristes ao extremo, sem vontade sequer de se levantar da cama, ela não mostra nenhum sinal evidente. Ou como disse uma amiga: “É uma doença que não sai sangue”.
A depressão é uma imensa ferida interna. Que não tem nada a ver com a ferida narcísica proposta por Freud. Ela é claro emocional também. Como toda doença ela tem reflexos nas nossas emoções. Costumo dizer que o deprimido tem as emoções à flor da pele. O que pode perfeitamente ser trivial, normal, para muitos, é tremendamente dolorido para nós.
É isso que comumente provoca o chamado “gatilho”, algo que leva o doente ao fundo, que deságua numa crise. Não sei precisar todos esses gatilhos (cada um tem os seus), mas descobri, não sem sofrimento, que lugares cheio de pessoas conversando, barulho excessivo, festas com muita gente desconhecida, ou uma simples crítica (que na hora pode parecer normal), ou ter uma expectativa frustrada (tipo, o amigo (a) que não vai te encontrar como previsto), são coisas aparentemente banais mas que desencadeiam em mim algum movimento depressivo.
Se eu detecto a tempo (ou se consigo evitar situações dessa natureza) posso minimizar o estrago. Posso mexer na medicação, de acordo com o médico, respirar mais, procurar alguém pra trocar afeto, abraçar alguém que gosto, e meditar, ajudam bastante. Mas isto sou eu. Na depressão não existe fórmula para todos. E quando se está em crise nada disto funciona. É como cair num buraco escuro e fundo: você não enxerga nenhuma saída.
Nessa hora não há nada que possa minimizar o sofrimento. Ter a sorte de alguém por perto que nos dê carinho e amor, é ótimo. Mas é preciso que essa pessoa tenha muita, muita paciência. Porque a pior coisa que alguém pode fazer ao depressivo em crise é tentar tira-lo do lugar em que ele está (morrendo de medo, mas está, porque aquilo é a única coisa que ele tem no momento). E nem use clichês na inocente tentativa de animá-lo. Dizer, por exemplo: “Você é uma pessoa tão bonita, tão Inteligente…” ou “A vida é linda!”. “Coloque um batom e vamos fazer compras que passa!” e tantas outras besteiras, é menosprezar a inteligência do deprimido. E se tem uma coisa que ele tem de sobra é inteligência. Pois a depressão é como viver a vida com enormes lentes de aumento. O sofrimento, portanto, é inevitável. E infelizmente, incurável.
E antes de terminar deixa eu dizer só mais uma coisa: não confundam tristeza com depressão, e trate os deprimidos com todo o respeito e dignidade que ele e todas as pessoas portadoras de doenças crônicas merecem. A gente agradece.

8 comentários
Categoria:
junho 7, 2010 às 0:43
Tema atualíssimo, texto perfeito, conteúdo de quem sabe o está dizendo, como sempre.
Parabéns e abraços
Frederico Valente
junho 7, 2010 às 0:56
Theresa, parabéns pelo seu texto, profundo, verdadeiro e emocionante. Um grande beijo
junho 8, 2010 às 11:58
Daria um ótimo debate as questões que você levantou para pintar o quadro da depressão. Não posso concor-dar, entretanto, sobre a questão da inteligência. Ser inteligente é, apesar da depressão, saber conviver bem com ela, tirando o melhor proveito!
junho 10, 2010 às 19:30
Em primeiro lugar, parabéns.
Excelente texto sobre depressão. Que inveja (no bom sentido)… Queria eu ter escrito, mas o máximo que consegui até o momento foi apenas o que pode ser visto no blog Cronicas de um Deprimido Cronico.
Em segundo lugar, que pena, alguém leu seu texto e não entendeu direito. O comentário do André é exemplo light do preconceito de que trata o artigo. É possível sim tirar proveito da depressão, mas não em qualquer fase e nem todos conseguem.
Frases prontas, sabedoria popular e conceitos descerebrados… Chega!
junho 11, 2010 às 13:39
Oi Luiz Henrique, obrigado pelo comentário. Vamos trocar figurinhas. Acabei de me cadastrar no seu blog, muito interessante. Também li aquela matéria na Galileu e confesso, achei um pouco irresponsável, coisa de quem não sabe mesmo e nunca sentiu depressão. Abraço
Theresa
junho 23, 2010 às 22:33
Muito bom esse artigo. Estou neste momento com depressão profunda e entendo muito bem o que você escreveu. PEna que o preconceito corre forte na nossa sociedade. Não posso dizer a ninguém que estou assim, por isso acabo me afastando de todos e eles pensam que sou anti-social ou que não ligo mais aos amigos ou à família. Só para contar uma pequena coisa, eu fui buscar o resultado das minhas análises ao sangue e está tudo bem, e então a resposta da minha mãe que viu os resultados foi: Você está de perfeita saúde, não tem nada com vocÊ!!!!!! depois de uma dessa sem comentários…………………..
julho 5, 2010 às 20:24
Prima, estou com vontade de saborear arroz Arbório, que dia você virá prepará-lo???
novembro 2, 2010 às 15:52
Parabéns! Ótimo texto!
Logicamente só poderia ter sido escrito por alguém que sente o problema na pele.
O preconceito infelizmente existe. Tb tenho depressão, e não costumava ter problema algum em falar sobre isso com quem quer que fosse.
Mas de um tempo para cá fui descobrindo o grande preconceito que existe, e resolvi passar a esconder isso de algumas pessoas. Na verdade, agora só falo mesmo disso com pessoas muito próximas.
Acho um pouco injusto a gente ter que esconder uma parte tão importante da gente, mas infelizmente parece necessário.
Abraços.