Cartas de paris por Carolina Nogueira
Só por prazer
O que você faz para se divertir?
A maior parte das pessoas que eu conheço no Brasil faz um happy hour no final do trabalho, vai ao cinema algumas vezes por semana, aproveita uma praia ou um clube, viaja sempre que dá.
A maior parte das pessoas que eu conheço aqui em Paris faz mais ou menos a mesma coisa, mas além disso mantém pelo menos uma atividade de lazer, prazerosa, da qual se ocupa com a maior seriedade e devoção.
A começar pelos esporte que, para o francês tradicional, não tem nada a ver com culto ao corpo. Data da última década a popularização em Paris das academias de ginástica no modelo que conhecemos, importado dos Estados Unidos.
A maior parte das pessoas pratica atividade física como lazer, pura e simplesmente. Quando estão querendo desopilar a mente, saem para correr pelos parques ou na calçada mesmo, procuram a piscina municipal mais perto.
Aulas de danças – dos mais diversos tipos de danças – não é coisa de criança, ao contrário: conheço uma mãe de família que faz sapateado, outra que frequenta aulas de jazz. Aos finais de semana, bicicleta é invariavelmente programa familiar, nos parques e florestas ao redor da cidade.
Aos esportes, somam-se os que arranham algum instrumento e outros, mais numerosos, que se dedicam às atividades manuais: desenho, pintura, porcelana, cerâmica e a unânime bricolagem.
Fazer um móvel diferente para a sala, consertar a vedação de uma janela que insiste em deixar entrar um ventinho frio no inverno – tudo isso está longe de ser uma obrigação chata, desagradável para essas pessoas.
Mexer com madeira, ferragens e ferramentas é um prazer enorme, transmitido de pai para filho, que ocupa finais de semanas inteiros – e cuja popularidade fica perceptível no tamanho dos andares inteiros dedicados ao tema em lojas de departamento das mais bacanas da cidade, como o BHV.
Entre as mulheres, o tricô vive uma fase de plena ascensão – e eu não estou falando (só) de mulheres idosas. Encantadas pela beleza da moda e dos acessórios feitos à mão, cada vez mais mocinhas tem ido se assessorar com suas avós ou outras senhoras da vizinhança para aprender a fazer suas peças.
O resultado é o sucesso de jovens como Emmanuelle Esther (http://www.emmanuelle-esther.com), que lançou sua marca de acessórios em tricô, na esteira do bom resultado do coletivo de arte contemporânea Collectif France Tricot – cuja proposta é realizar intervenções nas cidades, cobrindo de tricô monumentos e objetos urbanos.
Preciso comentar sobre a costura e a culinária? Pátria da moda e da gastronomia assinada, aqui em Paris esbarra-se com amadores dos garfos e das agulhas a cada esquina.
Os primeiros encontram-se nas feiras livres, nos mercados, discutindo temperos com os vendedores, aprendendo uma dica com o cozinheiro do restaurante ao final de um jantar bem servido. Os segundos – ou segundas, quase sempre – dividem segredos sobre lojinhas de tecidos especiais, e juntam-se em cafés especialmente munidos de máquinas de costura, para fofocar enquanto consertam uma barra de calça ou produzem uma bolsa para dar de presente.
E você, hein? O que faz do seu tempo livre?

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