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	<title>Crônicas da Cidade &#187; Crônica da Semana</title>
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	<description>por Theresa Hilcar</description>
	<lastBuildDate>Sun, 29 Jan 2012 21:41:16 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Os riscos de ser pedestre em Campo Grande</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jan 2012 21:06:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theresa Hilcar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica da Semana]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu n&#227;o atravesso na faixa. Sei que na maioria dos lugares o pedestre &#233; incentivado a faze-lo para sua pr&#243;pria prote&#231;&#227;o. Em muitos pa&#237;ses isto &#233; lei. Mas cumprir esta determina&#231;&#227;o em Campo Grande &#233; correr o risco de ser atropelado &#8211; e morto. Andar nas ruas da cidade &#233; uma aventura, pra n&#227;o dizer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu n&atilde;o atravesso na faixa. Sei que na maioria dos lugares o pedestre &eacute; incentivado a faze-lo para sua pr&oacute;pria prote&ccedil;&atilde;o. Em muitos pa&iacute;ses isto &eacute; lei. Mas cumprir esta determina&ccedil;&atilde;o em Campo Grande &eacute; correr o risco de ser atropelado &ndash; e morto.</p>
<p>Andar nas ruas da cidade &eacute; uma aventura, pra n&atilde;o dizer uma epop&eacute;ia. Em Campo Grande o pedestre n&atilde;o tem vez, voz, nem lugar. Ele &eacute; um p&aacute;ria. Uma exce&ccedil;&atilde;o. Talvez um inc&ocirc;modo. O personagem das ruas &eacute; o autom&oacute;vel. &Eacute; ele quem comanda, dita as normas, desfila sua onipot&ecirc;ncia impune, barulhento, nervoso, impaciente. O autom&oacute;vel &eacute; a estrela das ruas e avenidas. Ele &eacute; o dono do peda&ccedil;o. O pedestre &eacute; apenas um mais um item na paisagem.</p>
<p>Por v&aacute;rias raz&otilde;es h&aacute; anos abdiquei do carro. Medo de dirigir, economia, sustentabilidade, sa&uacute;de; mas, sobretudo por acreditar que, como todo cidad&atilde;o, tenho direito ao transporte p&uacute;blico digno. E caminhar &eacute; minha profiss&atilde;o de f&eacute;. Andar pelas ruas &eacute; interagir, sentir o cora&ccedil;&atilde;o da cidade, partilhar espa&ccedil;os, exercitar o corpo e a humildade deveria ser um prazer n&atilde;o uma luta.</p>
<p>Por isto n&atilde;o entendo o motivo de cercearem esta liberdade. N&atilde;o entendo porque n&atilde;o existem sinais de tr&acirc;nsito espec&iacute;ficos para os pedestres. Sim, eles n&atilde;o existem. O que fazemos todos os dias &eacute; escapar deles. Atravessamos as ruas no intervalo entre os autom&oacute;veis. Por isto a faixa se torna invi&aacute;vel. Porque nunca sabemos quando eles v&atilde;o virar a esquina, quase sempre em alta velocidade. Andamos com medo.</p>
<p>H&aacute; esquinas em que fico at&ocirc;nita em meio h&aacute; quatro vias de acesso &ndash; dos autom&oacute;veis, claro! O racioc&iacute;nio nessas horas tem que ser l&oacute;gico, preciso e calmo. Um deslize pode ser fatal. Por isto mesmo caminho sempre de t&ecirc;nis, para n&atilde;o correr o risco de escorregar no asfalto. Quando tenho um compromisso mais formal, levo um cal&ccedil;ado na bolsa e o t&ecirc;nis nos p&eacute;s. Os mais idosos sofrem em dobro. Eles n&atilde;o s&atilde;o prioridade no tr&acirc;nsito. Nem eu.</p>
<p>H&aacute; algum tempo entreguei ao prefeito projeto sobre &ldquo;Gentileza na cidade&rdquo;.&nbsp; Na minha modesta opini&atilde;o o que falta em Campo Grande &eacute; gentileza, principalmente no tr&acirc;nsito. &Eacute; uma quest&atilde;o cultural que pode e dever ser ensinada, praticada, incentivada. Ser gentil &eacute; ser respons&aacute;vel, generoso, normal. &Eacute; se colocar no lugar do outro. O projeto ficou no sil&ecirc;ncio. Mas al&eacute;m dele acredito que os governantes e seus afins poderiam fazer algo mais que n&atilde;o seja alargar avenidas, reformar jardins ou maquiar o asfalto. Sugiro que deixem de lado suas personas p&uacute;blicas, seus gabinetes refrigerados, os autom&oacute;veis confort&aacute;veis, a ilus&atilde;o do dever cumprido, para caminhar pelas ruas da cidade. N&atilde;o como autoridades, mas como meros cidad&atilde;os, an&ocirc;nimos &#8211; de prefer&ecirc;ncia. A experi&ecirc;ncia de estar do lado de fora, de ser apenas um entre tantos seres humanos poderia, quem sabe? &ndash; despertar-lhes a compaix&atilde;o pelas in&uacute;meras pessoas cujo &uacute;nico desejo &eacute; andar com seguran&ccedil;a.</p>
<p>A sociedade n&atilde;o pode mais aceitar a indiferen&ccedil;a dos que det&ecirc;m o poder de mudar. A vida, seja ela boa ou m&aacute;, &eacute; a &uacute;nica coisa que temos. Seria muito &nbsp;bom que todos a respeitassem.</p>
<p><strong>PS.</strong> Ontem por pouco n&atilde;o fui atingida por um cidad&atilde;o que ignorou o sinal na esquina das ruas Cand&icirc;do Mariano com a Jos&eacute; Ant&ocirc;nio. Ele n&atilde;o pode esperar o sinal abrir (as oito da noite) para virar a esquina, estacionar o carro&nbsp;para ir em dire&ccedil;&atilde;o ao bar. N&atilde;o resisti e disse &agrave; ele:&quot;Mo&ccedil;o, vc furou o sinal!&quot;. Ele respondeu:&quot;Vai cuidar da sua vida, dona&quot;. Eu cuido mo&ccedil;o. Sou pedestre. E atravessei na faixa!</p>


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		<title>Artigo publicado no Correio do Estado</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Dec 2011 19:51:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theresa Hilcar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica da Semana]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160;&#160;&#160;&#160; Tweet This! Compartilhar noFacebook Post on Google Buzz Promover noOrkut]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="display: none">&nbsp;</span><span style="display: none">&nbsp;</span><span style="display: none">&nbsp;</span><span style="display: none">&nbsp;</span><a href="http://www.theresahilcar.com.br/wp-content/uploads/2011/12/recorte_jornal.jpg"><img alt="" class="alignleft size-full wp-image-1299" height="1052" src="http://www.theresahilcar.com.br/wp-content/uploads/2011/12/recorte_jornal.jpg" title="recorte_jornal" width="765" /></a></p>


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		<title>Tudo por 10 reais &#8211; crônica da semana</title>
		<link>http://www.theresahilcar.com.br/tudo-por-10-reais-cronica-da-semana/</link>
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		<pubDate>Fri, 09 Dec 2011 18:51:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theresa Hilcar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica da Semana]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Sou garoto de programa. Fa&#231;o tudo por 10 reais&#8221;. A frase escrita no lado de dentro de um orelh&#227;o da esquina perto de casa n&#227;o me choca. Mas me entristece. Sinto como se fosse o outro lado da mesma moeda fraca, desvalorizada. Em situa&#231;&#227;o de desalento, sem trabalho, sem dinheiro, sem perspectiva nem expectativas, percebo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><span style="font-size: 14px"><em>&ldquo;Sou garoto de programa. Fa&ccedil;o tudo por 10 reais&rdquo;. </em>A frase escrita no lado de dentro de um orelh&atilde;o da esquina perto de casa n&atilde;o me choca. Mas me entristece. Sinto como se fosse o outro lado da mesma moeda fraca, desvalorizada. Em situa&ccedil;&atilde;o de desalento, sem trabalho, sem dinheiro, sem perspectiva nem expectativas, percebo algu&eacute;m cujo desespero vai al&eacute;m do pensamento ou da imagina&ccedil;&atilde;o. Algu&eacute;m que transformou a dor de viver numa esp&eacute;cie de altar de sacrif&iacute;cios. A dor em prazer ou o prazer em dor. Devo admitir que a desesperan&ccedil;a dele n&atilde;o se compara a minha que, felizmente, posso traduzir em letras. N&atilde;o em atos.</span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: 14px">Come&ccedil;o a imaginar como ser&aacute; a vida deste rapaz &ndash; &nbsp;imagino que seja sim, um rapaz, pois velhos n&atilde;o costumam colocar seus corpos &agrave; venda por uma simples quest&atilde;o de oferta e procura &#8211; que faz marketing do seu, digamos, of&iacute;cio, num orelh&atilde;o do centro da cidade, e com direito a telefone de contato. Como ser&aacute; a sua rotina? Ter&aacute; talvez uma fam&iacute;lia, um lar? Ser&aacute; que &eacute; bonito, atl&eacute;tico, ou feio e franzino? Ser&aacute; que este mecanismo de propaganda funciona? Que tipo de pessoa aceita a oferta de um &ldquo;an&uacute;ncio&rdquo; no orelh&atilde;o?</span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: 14px">Por 10 reais ele faz tudo. Por apenas 10 reais qualquer pessoa pode dispor do corpo &ndash; e da alma &ndash; deste rapaz. Pode tocar suas partes mais &iacute;ntimas, penetrar nas suas entranhas, rasgar sua pele, morder sua boca, puxar-lhe os cabelos, derramar-lhe a satisfa&ccedil;&atilde;o, lan&ccedil;ar-lhe olhar de desprezo. Pode at&eacute;, e n&atilde;o &eacute; raro, espancar-lhe at&eacute; a morte.&nbsp; &ldquo;Fa&ccedil;o tudo por 10 reais&rdquo;. Pela m&oacute;dica quantia de 10 reais, mais a liga&ccedil;&atilde;o telef&ocirc;nica, ele se sujeitar&aacute; a tudo e a todos: covardes, tarados, reprimidos, solit&aacute;rios, desesperados, raivosos, frustrados, homens, mulheres e gays.</span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: 14px">Imagino qual ser&aacute; o faturamento di&aacute;rio deste neg&oacute;cio. Quanto seu suor lhe render&aacute; no final do m&ecirc;s. Num dia de bom movimento ele poderia atender 10 clientes? E se atendesse o que faria com seus 100 reais? Compraria uma cal&ccedil;a nova? Pagaria aluguel de um quartinho de fundos? Faria o supermercado da m&atilde;e? Gastaria tudo em cerveja no final da noite? Ser&aacute; que esta quantia &eacute; o bastante para mant&ecirc;-lo a salvo de traficantes?</span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: 14px">N&atilde;o importa a finalidade do seu soldo di&aacute;rio, semanal ou mensal. O que me intriga &eacute; o saldo da sua desilus&atilde;o, do seu desprezo por si pr&oacute;prio, da entrega, do vazio de todos os dias e da possibilidade real de ter a vida interrompida a qualquer instante, por qualquer um. Gostaria de saber o que lhe apetece neste of&iacute;cio de objeto sexual, e como se sente sabendo que nunca receber&aacute; nada em troca que n&atilde;o seja uma nota velha e gasta, ou um monte de moedas, quem sabe passe de &ocirc;nibus, um papelote de crack, uma cerveja, uma faca?</span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: 14px">Por 10 reais um pobre rapaz fornece a vida. E deixa levar tamb&eacute;m um pouco dos seus sonhos, sua t&ecirc;nue esperan&ccedil;a, sua m&iacute;nima dignidade e at&eacute; a sua alma, ainda que dilacerada. E de gra&ccedil;a ele d&aacute; uma cr&ocirc;nica. Que apesar de n&atilde;o ter gra&ccedil;a nenhuma &eacute; terrivelmente verdadeira. Nunca a vida valeu t&atilde;o pouco para tantos. &Eacute; mesmo selvagem este &nbsp;capitalismo.</span></p>


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		<title>Rotina &#8211; crônica da semana</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Sep 2011 15:17:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theresa Hilcar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica da Semana]]></category>

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		<description><![CDATA[Acordo de manh&#227; com o gato miando a beira da cama. Todo dia &#233; a mesma coisa. &#192;s vezes me irrito. N&#227;o entendo o motivo desse miado feito choro todas as manh&#227;s. &#201; como se ele me pedisse algo que n&#227;o tenho para dar. Seu miado n&#227;o &#233; de fome, pois tenho cuidado de deixar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.theresahilcar.com.br/wp-content/uploads/2011/09/solidao.jpg"><img alt="" class="alignleft size-full wp-image-1232" height="375" src="http://www.theresahilcar.com.br/wp-content/uploads/2011/09/solidao.jpg" title="solidao" width="500" /></a>Acordo de manh&atilde; com o gato miando a beira da cama. Todo dia &eacute; a mesma coisa. &Agrave;s vezes me irrito. N&atilde;o entendo o motivo desse miado feito choro todas as manh&atilde;s. &Eacute; como se ele me pedisse algo que n&atilde;o tenho para dar. Seu miado n&atilde;o &eacute; de fome, pois tenho cuidado de deixar seu prato sempre cheio de ra&ccedil;&atilde;o. O &ldquo;banheiro&rdquo; tamb&eacute;m est&aacute; sempre limpo. Ele est&aacute; saud&aacute;vel, pois vai sempre ao veterin&aacute;rio. Ent&atilde;o porque ele sempre mia deste jeito?</p>
<p>Levanto-me e vou &agrave; cozinha para o primeiro passo do&nbsp;meu ritual de todas as manh&atilde;s: esquento &aacute;gua, misturo com &aacute;gua fria e um pouco de lim&atilde;o espremido num copo alto e tomo de uma s&oacute; golada. Antes tomava s&oacute; um copo, mas me disseram que dois &eacute; melhor, ent&atilde;o bebo dois copos cheios desta mistura. &Eacute; bom para os intestinos. E eu sempre me preocupo com meus intestinos. Acredito que eles devem estar sempre limpos e saud&aacute;veis.</p>
<p>Em seguida preparo outra mistura: desta vez uso o liquidificador para bater vegetais como couve, salsinha, hortel&atilde; e mais alho-por&oacute; e ma&ccedil;&atilde;. Fa&ccedil;o isto todos os dias como se fosse ora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; bom pra sa&uacute;de, foi o que li. Ontem me disseram que &eacute; bom acrescentar inhame.&nbsp; Dizem que &eacute; um dos melhores alimentos que existe, e faz muito bem para quem est&aacute; na menopausa e precisa de horm&ocirc;nios. De vez em quando eu acrescento o inhame, mas a textura do suco n&atilde;o fica l&aacute; muito boa para se tomar. Prefiro cozinhar o inhame e comer com arroz integral. Tamb&eacute;m &eacute; um h&aacute;bito que incorporei h&aacute; muito tempo.</p>
<p>Com este suco verde engulo minhas vitaminas e meus rem&eacute;dios. Atualmente s&atilde;o oito c&aacute;psulas: vitamina C, E, complexo B, &oacute;leo de linha&ccedil;a, sucupira (que adotei recentemente), gelatina e um antidepressivo, porque sem ele n&atilde;o d&aacute; pra encarar o dia. Depois disto volto minha aten&ccedil;&atilde;o ao caf&eacute; da manh&atilde;, propriamente dito. Fa&ccedil;o o caf&eacute; na cafeteira italiana que deixa um aroma e sabor bem interessantes. E sempre escolho uma boa marca, &agrave;s vezes org&acirc;nico, quando encontro por um bom pre&ccedil;o. Produtos org&acirc;nicos s&atilde;o sempre mais caros, mas s&atilde;o bem melhores. Enquanto espero o caf&eacute;, coloco uma fatia de p&atilde;o integral na torradeira. Aprendi que p&atilde;o torrado &eacute; bem mais saud&aacute;vel e melhor para digest&atilde;o.</p>
<p>Em p&eacute;, junto ao balc&atilde;o da cozinha, tomo o caf&eacute; com a torrada e um pouco de manteiga. Nunca me sento para fazer a primeira refei&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o sei por que, mas &eacute; assim h&aacute; tempos, desde que moro sozinha. Terminada esta etapa, pego meu cigarro e vou ao banheiro onde passo pelo menos 20 minutos. Leio, fumo, lixo minhas unhas, at&eacute; meu intestino funcionar. &Agrave;s vezes demora. Mas n&atilde;o saio de casa sem este ritual. No meu banheiro tenho uma pequena biblioteca com revistas e livros. S&atilde;o sempre leituras f&aacute;ceis que posso interromper a qualquer momento. O banheiro &eacute; local para leituras leves.</p>
<p>At&eacute; a&iacute; meu dia transcorre normal, sem surpresas. Depois disto &eacute; que come&ccedil;am as minhas idiossincrasias. Nunca sei o que fazer depois. N&atilde;o trabalho h&aacute; quase um ano. Meu dia &eacute; livre, ou quase. Tenho afazeres dom&eacute;sticos, mas nada que me toma muito o tempo. Fa&ccedil;o apenas o que me d&aacute; vontade. E quase nunca tenho vontade. Passo o dia dividindo o tempo entre o computador, onde deixo mensagens ou textos no meu blog ou no Facebook, e a televis&atilde;o. Mas s&oacute; gosto de ver filmes. N&atilde;o vejo TV aberta porque me irritam todos aqueles programas idiotas e os telejornais sensacionalistas d&atilde;o um n&oacute; no meu est&ocirc;mago.</p>
<p>Fumo sem parar. Jurei que ira parar de fumar aos cinq&uuml;enta, mas estou fumando muito mais. &Agrave;s vezes 10 ou quinze cigarros por dia. E tomo muito caf&eacute; tamb&eacute;m. Nos intervalos como comida saud&aacute;vel. Eu sei, &eacute; incoerente. Mas eu sou incoerente, n&atilde;o d&aacute; pra escapar. E &agrave;s bebo. Muito. E tenho ressacas hom&eacute;ricas porque meu f&iacute;gado odeia &aacute;lcool e minha alma n&atilde;o suporta mais fugas. Quando estou num bom dia fa&ccedil;o medita&ccedil;&atilde;o. Tenho fases em que medito todas as tardes. Noutras, como agora, fico torcendo para o dia acabar e eu, finalmente, poder dormir. Mas isto n&atilde;o adianta muito, porque no outro dia come&ccedil;a tudo de novo. E meu gato sempre mia.&nbsp; E eu n&atilde;o sei por que.</p>


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		<title>Como viver todos os dias</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Aug 2011 15:52:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theresa Hilcar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica da Semana]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho muitas coisas em comum, liter&#225;riamente falando, com a colunista Martha Medeiros. &#201; realmente incr&#237;vel a coincid&#234;ncia de temas e abordagem que fazemos em nossas cr&#244;nicas. E esta &#233; uma daquelas cr&#244;nicas que eu realmente gostaria de ter escrito. Aproveitem: A Morte Devagar &#8211; por Martha Medeiros &#160; Morre lentamente quem n&#227;o troca de id&#233;ias, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho muitas coisas em comum, liter&aacute;riamente falando, com a colunista Martha Medeiros. &Eacute; realmente incr&iacute;vel a coincid&ecirc;ncia de temas e abordagem que fazemos em nossas cr&ocirc;nicas. E esta &eacute; uma daquelas cr&ocirc;nicas que eu realmente gostaria de ter escrito. Aproveitem:</p>
<p>
	<strong>A Morte Devagar &#8211; por Martha Medeiros</strong><br />
	&nbsp;<br />
	Morre lentamente quem n&atilde;o troca de id&eacute;ias, n&atilde;o troca de discurso, evita as pr&oacute;prias contradi&ccedil;&otilde;es.<br />
	&nbsp;<br />
	Morre lentamente quem vira escravo do h&aacute;bito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem n&atilde;o troca de marca, n&atilde;o arrisca vestir uma cor nova, n&atilde;o d&aacute; papo para quem n&atilde;o conhece.<br />
	&nbsp;<br />
	Morre lentamente quem faz da televis&atilde;o o seu guru e seu parceiro di&aacute;rio. Muitos n&atilde;o podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informa&ccedil;&atilde;o e entretenimento, mas que n&atilde;o deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espa&ccedil;o em uma vida.<br />
	&nbsp;<br />
	Morre lentamente quem evita uma paix&atilde;o, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilh&atilde;o de emo&ccedil;&otilde;es indom&aacute;veis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e solu&ccedil;os, cora&ccedil;&atilde;o aos trope&ccedil;os, sentimentos.<br />
	&nbsp;<br />
	Morre lentamente quem n&atilde;o vira a mesa quando est&aacute; infeliz no trabalho, quem n&atilde;o arrisca o certo pelo incerto atr&aacute;s de um sonho, quem n&atilde;o se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.<br />
	&nbsp;<br />
	Morre lentamente quem n&atilde;o viaja quem n&atilde;o l&ecirc; quem n&atilde;o ouve m&uacute;sica, quem n&atilde;o acha gra&ccedil;a de si mesmo.<br />
	&nbsp;<br />
	Morre lentamente quem destr&oacute;i seu amor-pr&oacute;prio. Pode ser depress&atilde;o, que &eacute; doen&ccedil;a s&eacute;ria e requer ajuda profissional. Ent&atilde;o fenece a cada dia quem n&atilde;o se deixa ajudar.<br />
	&nbsp;<br />
	Morre lentamente quem n&atilde;o trabalha e quem n&atilde;o estuda, e na maioria das vezes isso n&atilde;o &eacute; op&ccedil;&atilde;o e, sim, destino: ent&atilde;o um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da popula&ccedil;&atilde;o.<br />
	&nbsp;<br />
	Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da m&aacute; sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de inici&aacute;-lo, n&atilde;o perguntando sobre um assunto que desconhece e n&atilde;o respondendo quando lhe indagam o que sabe.<br />
	&nbsp;<br />
	Morre muita gente lentamente, e esta &eacute; a morte mais ingrata e trai&ccedil;oeira, pois quando ela se aproxima de verdade, a&iacute; j&aacute; estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanh&atilde;, portanto, demore muito para ser o nosso dia. J&aacute; que n&atilde;o podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves presta&ccedil;&otilde;es, lembrando sempre que estar vivo exige um esfor&ccedil;o bem maior do que simplesmente respirar.</p>


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		<title>Quem vai se lembrar de Iracema Sampaio?</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Aug 2011 20:57:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theresa Hilcar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica da Semana]]></category>

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		<description><![CDATA[Chego do enterro de Iracema Sampaio e de repente me vem &#224; sensa&#231;&#227;o, horr&#237;vel sim, de que Iracema viveu de sonhos e morreu em meio a pesadelos. Baiana de nascimento e sul-mato-grossense de cora&#231;&#227;o, ela deixou esta vida ontem &#224; noite, mas o Estado que ela tanto amou j&#225; havia enterrado-a h&#225; bastante tempo. Conheci&#160; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chego do enterro de Iracema Sampaio e de repente me vem &agrave; sensa&ccedil;&atilde;o, horr&iacute;vel sim, de que Iracema viveu de sonhos e morreu em meio a pesadelos. Baiana de nascimento e sul-mato-grossense de cora&ccedil;&atilde;o, ela deixou esta vida ontem &agrave; noite, mas o Estado que ela tanto amou j&aacute; havia enterrado-a h&aacute; bastante tempo.</p>
<p>Conheci&nbsp; Iracema no in&iacute;cio dos anos 80, quando me convidou para escrever na sua revista Executivo Plus, por sugest&atilde;o do amigo Alexandre Bilo (que tamb&eacute;m j&aacute; se foi). Escrevia artigos sobre a mulher e outras firulas. Com duas p&aacute;ginas inteiras para preencher, falava de tudo um pouco, n&atilde;o havia censura, n&atilde;o havia pauta.&nbsp; Pouco depois ela me pediu pra escrever sobre moda. L&aacute; fui eu desbravar o universo fashion quando praticamente n&atilde;o existia nada no g&ecirc;nero na cidade. Tudo isto sem qualquer tipo de patroc&iacute;nio, literalmente sem dinheiro.</p>
<p>Iracema tocava a revista e promovia eventos. Tudo sem qualquer planejamento, e com margem de preju&iacute;zo. N&atilde;o existiam as leis de incentivo, nem nada que pudesse dar algum ganho financeiro. Na maioria das vezes ela tirava do pr&oacute;prio bolso para pagar despesas. E os eventos eram todos muito concorridos. Durante mais de oito anos ela instituiu o pr&ecirc;mio Gar&ccedil;a de Ouro para premiar os maiores contribuintes do Estado. Pol&iacute;ticos a reverenciavam, empres&aacute;rios a respeitavam, celebridades (num tempo em que celebridade n&atilde;o era personagem de Reality show) e cantores, todos viam para a festa sem cobrar cach&ecirc;. Inclusive S&eacute;rgio Chapelen, Marcos Hummel, Jair Rodrigues e outros que n&atilde;o me recordo agora.</p>
<p>Uma baiana que inventava moda e fazia hist&oacute;ria com sua alegria de viver e sua vontade de fazer deste Estado um celeiro de oportunidades e cultura. N&atilde;o contente com o que j&aacute; fazia, e sempre com preju&iacute;zo, inventou a Gransoja, uma mega feira internacional de gr&atilde;os e neg&oacute;cios no Albano Franco. Na segunda edi&ccedil;&atilde;o, Iracema e todos os participantes da Feira foram pegos pelo Plano Collor. Os preju&iacute;zos foram imensos. Ela perdeu todo o dinheiro, mesmo assim conseguiu honrar todos os compromissos.</p>
<p>Tempos depois, foi ela, uma baiana, que prestou a maior homenagem ao nosso poeta, Manoel de Barros, editando um livro de fotografias e poemas intitulado &ldquo;Para procurar azul, eu uso p&aacute;ssaros&rdquo;. O livro, capa dura, edi&ccedil;&atilde;o de luxo, foi lan&ccedil;ado com festa no Pal&aacute;cio Popular da Cultura, com direito a recital de poesia com a atriz C&aacute;ssia Kiss. Manoel, pouco afeito a homenagens e salamaleques, estava presente e, diga-se, poucas vezes o vi t&atilde;o feliz.</p>
<p>Iracema tinha uma alma t&atilde;o pura e grande como s&oacute; as m&atilde;es possuem, embora ela mesma nunca tenha tido a gra&ccedil;a de parir um filho. Mas era m&atilde;e de muitos. Sua casa estava sempre cheia de amigos e agregados, gente que n&atilde;o tinha onde morar e iam ficando por l&aacute;, fazendo algum trabalho em troca de casa, comida e carinho, muito carinho. &nbsp;O que ela tinha era dividido com todos.&nbsp; Nunca, nunca ouvi de Iracema alguma frase de reclama&ccedil;&atilde;o. Nada era trabalhoso, tudo tinha prop&oacute;sito. Cozinheira de m&atilde;o cheia passou a se dedicar &aacute; literatura gastron&ocirc;mica, publicando livros com receitas e enaltecendo o potencial do Estado com ingredientes da regi&atilde;o.</p>
<p>A obesidade e a gula confessa n&atilde;o eram problemas, at&eacute; o joelho acusar o excesso de peso. Encontrei-a pela &uacute;ltima vez em Bras&iacute;lia, numa cadeira de rodas. Tinha ido garimpar recursos na esfera federal para editar mais um livro. Isto pouco depois da morte do seu grande companheiro, Francelmo que tamb&eacute;m morreu por uma causa. Lembro-me de ter ido &agrave; casa dela minutos depois do ocorrido. Eu estava preocupada com sua sa&uacute;de e com o impacto da not&iacute;cia da imola&ccedil;&atilde;o de Francelmo poderia lhe causar. Encontrei uma Iracema tranq&uuml;ila, forte, ciente de que o companheiro sabia muito bem o que fazia. Sua preocupa&ccedil;&atilde;o era o filho (adotado e adorado) rec&eacute;m entrando na adolesc&ecirc;ncia. Os mesmos que hoje abracei e, a guisa de conforto, disse apenas &ldquo;Tenha for&ccedil;a, ela gostaria disto&rdquo;.</p>
<p>Iracema foi forte at&eacute; onde foi poss&iacute;vel. Soube hoje que lutou com dificuldades in&uacute;meras. Nunca amealhou fortuna, e o &uacute;nico bem que possu&iacute;a uma casa na Avenida Tamandar&eacute;, estava &agrave; venda para pagar seu tratamento de sa&uacute;de. No seu vel&oacute;rio s&oacute; havia os amigos de sempre.&nbsp; Nenhuma das pessoas que ela sempre abria as p&aacute;ginas das revistas &ndash; e do cora&ccedil;&atilde;o &ndash; foi dar seu adeus. O &uacute;nico pol&iacute;tico presente foi Dr.Wilson, ningu&eacute;m mais. Nenhum empres&aacute;rio, artista, celebridade, nada. E isto depois de lan&ccedil;ar novo livro de culin&aacute;ria h&aacute; cerca de trinta dias.</p>
<p>Na hora de me arrumar para o vel&oacute;rio lembrei-me de uma, das v&aacute;rias passagens que tivemos: Iracema sempre implicou com a minha mania de andar de t&ecirc;nis. Achava que toda mulher deveria andar de salto alto. Um dia ela pegou meus dois filhos, ainda pequenos, e praticamente os convenceu a jogar fora todos os meus t&ecirc;nis.&nbsp; Dando gargalhadas, ela me contou o fato tempos depois.</p>
<p>Iracema Sampaio, mulher de fibra, de cora&ccedil;&atilde;o, de humildade. O Estado n&atilde;o fez justi&ccedil;a ao bem que voc&ecirc; trouxe para esta terra. A maioria desconhece o seu trabalho, porque ela sempre esteve &agrave; frente do seu tempo. Pode ser que daqui a algum tempo algum livro de hist&oacute;ria cite seu nome. Pode ser. Mas do que adiantam as homenagens p&oacute;stumas? De que vale ter seu nome inscrito na hist&oacute;ria? Iracema n&atilde;o foi reconhecida em vida. Talvez sua baianidade tenha sido mal interpretada. Iracema era sempre muito e isto n&atilde;o pega bem por aqui. Ela era uma estrangeira e foi tratada como tal. Embora, arrisco-me a dizer, nenhum sul-mato-grossense tenha se preocupado tanto em divulgar o Estado como ela.</p>
<p>Agora o sentimento que tenho tamb&eacute;m &eacute; de desconforto. E a certeza de que este Estado n&atilde;o mereceu Iracema. Um Estado que &eacute; governado por estrangeiros, mas que n&atilde;o valoriza quem trabalha por ele, de gra&ccedil;a. Um Estado que n&atilde;o venceu os preconceitos. Que n&atilde;o valoriza a cultura nem as pessoas de bom cora&ccedil;&atilde;o. O que mais se pode fazer por um Estado como este a n&atilde;o ser ir embora daqui? &nbsp;De um jeito ou de outro. Infelizmente.</p>


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		<title>Sobre o direito de caminhar</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jul 2011 21:22:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theresa Hilcar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica da Semana]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; &#160;Tenho enorme curiosidade em saber qual a popula&#231;&#227;o de deficientes visuais de Campo Grande. Deve ser imensa, a julgar pelos quil&#244;metros e quil&#244;metros de piso t&#225;til instalados na cidade. Imagino que qualquer pessoa que visite a capital pela primeira vez, deve se perguntar a mesma coisa. Mas o que me intriga mesmo &#233; o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="display: none">&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-size: 14px"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif"><span style="display: none">&nbsp;</span>Tenho enorme curiosidade em saber qual a popula&ccedil;&atilde;o de deficientes visuais de Campo Grande. Deve ser imensa, a julgar pelos quil&ocirc;metros e quil&ocirc;metros de piso t&aacute;til instalados na cidade. Imagino que qualquer pessoa que visite a capital pela primeira vez, deve se perguntar a mesma coisa. Mas o que me intriga mesmo &eacute; o fato de que, desde o meu retorno de Bras&iacute;lia, h&aacute; cerca de dez meses, nunca encontrei nenhum deficiente visual na rua. </span></span><span style="font-family: 'arial', 'sans-serif'"><font size="3"><o:p></o:p></font></span></p>
<p><span style="font-size: 14px"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif">E digo isto baseado na minha condi&ccedil;&atilde;o de pedestre militante. De quem percorre a cidade, principalmente centro, Jardim dos Estados e S&atilde;o Francisco, todos os dias a p&eacute;. Ando muito mesmo. Vou a supermercado, visito pessoas, vou ao banco, fa&ccedil;o tudo, enfim, andando. Eles devem ser poucos, mas bem articulados.</span></span><span style="font-family: 'arial', 'sans-serif'"><font size="3"><o:p></o:p></font></span></p>
<p><span style="font-size: 14px"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif">Evidentemente acho louv&aacute;vel e correto construir pisos que facilitem a vida dos que n&atilde;o enxergam, mas quando caminho pelas cal&ccedil;adas e atravesso ruas num tr&acirc;nsito que privilegia autom&oacute;vel eu me pergunto: mas e o resto? E os cadeirantes, os idosos, as pessoas que n&atilde;o podem ou n&atilde;o querem ter carros e s&atilde;o obrigadas a caminhar pelas ruas repleta de buracos e ainda convivem com o desrespeito dos que se julgam no direito de &ldquo;voar&rdquo; pelo asfalto ignorando os pedestres? </span></span><span style="font-family: 'arial', 'sans-serif'"><font size="3"><o:p></o:p></font></span></p>
<p><span style="font-size: 14px"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif">Sabemos que quem decide os destinos do cidad&atilde;o em sua maioria s&atilde;o pessoas que n&atilde;o costumam andar a p&eacute;. Portanto n&atilde;o fazem a menor id&eacute;ia dos percal&ccedil;os que passamos ao caminhar pelas ruas da cidade. Ser&aacute; que eles gostariam de passar pela experi&ecirc;ncia de andar numa cidade sem seguran&ccedil;a? Ser&aacute; que eles imaginam o sufoco que &eacute; atravessar uma rua ou avenida, quase sempre sem sinal (seguro) para pedestres?</span></span><span style="font-family: 'arial', 'sans-serif'"><font size="3"><o:p></o:p></font></span></p>
<p><span style="font-size: 14px"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif">Andar a p&eacute; em Campo Grande &eacute; uma aventura. Pra n&atilde;o dizer um risco. Ent&atilde;o por que s&oacute; os deficientes visuais ganham faixas exclusivas? E mais: ser&aacute; que eles andam somente nas cal&ccedil;adas? Ser&aacute; que eles voam at&eacute; o outro lado da rua? Prestem aten&ccedil;&atilde;o no final das cal&ccedil;adas, quase sempre h&aacute; um bueiro em estado duvidoso ou um buraco, ou ainda cal&ccedil;adas com degraus enormes.</span></span><span style="font-family: 'arial', 'sans-serif'"><font size="3"><o:p></o:p></font></span></p>
<p><span style="font-size: 14px"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif">Que as autoridades construam (com dinheiro do contribuinte) pisos t&aacute;teis, mas que tamb&eacute;m adotem pol&iacute;ticas de tr&acirc;nsito eficientes e procurem resolver o problema dos pedestres em geral. Os acidentes e atropelamentos est&atilde;o a&iacute; pra n&atilde;o deixar d&uacute;vidas da inefici&ecirc;ncia do nosso tr&acirc;nsito.</span></span><span style="font-family: 'arial', 'sans-serif'"><font size="3"><o:p></o:p></font></span></p>
<p><span style="font-size: 14px"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif">Sei que boas a&ccedil;&otilde;es come&ccedil;am aos poucos, v&atilde;o se desenvolvendo, mas se a gente n&atilde;o cobrar fica tudo como est&aacute;. Com certeza os pisos t&aacute;teis foram reivindicados por gente que sofre na pele as incertezas de caminhar.</span></span><span style="font-family: 'arial', 'sans-serif'"><font size="3"><o:p></o:p></font></span></p>
<p><span style="font-size: 14px"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif">N&oacute;s tamb&eacute;m temos este direito.<span style="display: none">&nbsp;</span></span></span><span style="font-family: 'arial', 'sans-serif'"><font size="3"><o:p></o:p></font></span></p>
<p><span style="display: none">&nbsp;</span></p>


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		<title>Viagens de gratidão &#8211; crônica</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Jul 2011 21:08:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theresa Hilcar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica da Semana]]></category>

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		<description><![CDATA[Inicio minha viagem curativa em Alto Para&#237;so (GO), mais precisamente em Moinho, lugarejo distante 12 km da cidade goiana, famosa pelas cachoeiras e energia peculiar, incluindo esoterismo e epis&#243;dios de OVNIS. Mas s&#227;o os discos voadores que me levam &#224; casa de Samvara, terapeuta alem&#227; que trocou vida cosmopolita de Berlim por um pequeno peda&#231;o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Inicio minha viagem curativa em Alto Para&iacute;so (GO), mais precisamente em Moinho, lugarejo distante 12 km da cidade goiana, famosa pelas cachoeiras e energia peculiar, incluindo esoterismo e epis&oacute;dios de OVNIS. Mas s&atilde;o os discos voadores que me levam &agrave; casa de Samvara, terapeuta alem&atilde; que trocou vida cosmopolita de Berlim por um pequeno peda&ccedil;o de terra no meio do mato, em pleno Centro Oeste, h&aacute; cerca de 20 anos. Sua casa &eacute; um pequeno/grande o&aacute;sis de natureza, alegria e cura emocional. Fincada em meio a belas &aacute;rvores, vegeta&ccedil;&atilde;o nativa e com direito a pequeno veio de &aacute;gua que forma um lago transparente, a casa &eacute; um chal&eacute; repleto de charme, simplicidade e limpeza.</p>
<p>No espa&ccedil;o terap&ecirc;utico onde me instalo, fora da resid&ecirc;ncia principal, tenho tudo que preciso, &nbsp;inclusive o sil&ecirc;ncio da natureza e o barulho, esp&eacute;cie de sinfonia, dos p&aacute;ssaros. Imposs&iacute;vel n&atilde;o se sentir em paz num lugar assim. Entre medita&ccedil;&otilde;es, t&eacute;cnicas de Gestalt e muita compaix&atilde;o, descubro em apenas quatro dias o que levei a vida inteira para construir: o medo de ser quem eu sou. A ponta do iceberg que cont&eacute;m hist&oacute;rias mal contadas, excesso de cren&ccedil;as infantis, bagagens que n&atilde;o s&atilde;o minhas, dor de viver, medo de amar.</p>
<p>Entre um trabalho e outro, a vida, generosa que &eacute; ainda abre espa&ccedil;o para encontrar amigos antigos, novos e uma nova filosofia de vida: a filosofia da gratid&atilde;o. &ldquo;Tudo &eacute; perfeito do jeito que &eacute;&rdquo;. Coisas que a gente ouve falar, mas nunca encontra tempo para experimentar. Obrigada Samvara, Baskar, Sathi, Niranjana, Taruno, Nadeeshe e todos que passaram por mim nesta jornada em Alto Para&iacute;so. Um para&iacute;so at&eacute; no nome.</p>
<p>No caminho &agrave; terra natal, fa&ccedil;o duas paradas afetivas. Na casa de Marg&ocirc;t, amiga do cora&ccedil;&atilde;o, onde ganho hospedagem, cocada, carinho, livro e carona para Arcos, bem pr&oacute;ximo ao meu destino. Vou meditando no caminho, tentando conter o pavor de viajar de autom&oacute;vel, e de vez em quando me belisco at&eacute; doer, como forma de brecar os pensamentos negativos (t&eacute;cnica minha com inspira&ccedil;&atilde;o nos monges do Himalaia) da viagem. O amigo gentil me acalma e dirige ainda mais devagar.</p>
<p>Chegamos de noite e atendo o pedido para seguir viagem &agrave; Lagoa pela manh&atilde;. Na casa ladeada por jardins e orqu&iacute;deas que mais parecem pinturas, conhe&ccedil;o Tonico de olhos azuis e simplicidade desconcertantes. A casa &eacute; de m&eacute;dico, mas quem sugere &ndash; e tamb&eacute;m faz &#8211; o rem&eacute;dio para aminha tosse &eacute; ele, jardineiro nas horas vagas e s&aacute;bio no restante do tempo. Ele me conta que n&atilde;o assiste TV (&ldquo;n&atilde;o tem nada de bom pra gente&rdquo;), nunca come depois das 18 horas, canta em italiano para as plantas (com entusiasmo contagiante), se trata com plantas e ervas e tem alegria de viver que me d&aacute; certa inveja. Antes de ir, Tonico me diz que est&aacute; louco pra arrumar namorada. Conta que j&aacute; fez at&eacute; promessa, mas na cidade n&atilde;o h&aacute; mulheres sobrando. Prometo fazer propaganda dele, e me despe&ccedil;o j&aacute; saudosa do seu riso solto. Obrigada Paulo C&eacute;sar (de quem aprendi a gostar), Marg&ocirc;t, Tonico e todos com quem cruzei no caminho.</p>
<p>Em Lagoa volto no tempo com os p&eacute;s no presente. Procuro amigos que n&atilde;o veja h&aacute; tempos, parentes a quem nunca dei tempo, fa&ccedil;o planos, ou&ccedil;o conselhos. Minha tia, mesmo doente, cozinha, sorri e agradece tudo e todos. Nos intervalos atende os amigos, vai &agrave; casa de um monte deles fazer pequenos favores: tingir o cabelo da vizinha; arrumar a festa de anivers&aacute;rio do afilhado, ajudar na mudan&ccedil;a da amiga, tudo ela faz com amor e alegria. Uma ben&ccedil;&atilde;o minha tia Vilma! Que ainda insiste em carregar minha bagagem, mais pesada do que ela, n&atilde;o obstante as ordens m&eacute;dicas de poupar a fr&aacute;gil coluna.</p>
<p>Durante o dia ando pela cidade que descubro crescida e mais pr&oacute;spera, ando na bicicleta de cestinha na orla da lagoa, fa&ccedil;o incurs&otilde;es noturnas no novo bairro moderno &ndash; e chique &ndash; onde antes era havia s&iacute;tios e laranjal. E pratico, todo o tempo, algo que havia esquecido: cumprimentar as pessoas na rua, h&aacute;bito interiorano que antes n&atilde;o valorizava, mas que hoje enche meu cora&ccedil;&atilde;o de alegria. Ningu&eacute;m me pergunta de onde vim, pra onde vou, ou o que tenho. Eles apenas sorriem e me olham com o mesmo carinho da inf&acirc;ncia.</p>
<p>No caminho at&eacute; BH paro em Divin&oacute;polis, terra de Ad&eacute;lia Prado e do meu amigo Karioca. Ele e sua mulher, Cristina, me recebem com mesa farta de bolos e p&atilde;es de queijo, e compartilham a dor de perder o filho aos 21 anos. N&atilde;o reclamam, n&atilde;o se revoltam, nem se lamuriam, apenas sentem. E ainda mant&ecirc;m espa&ccedil;o no cora&ccedil;&atilde;o para o carinho e a amizade irrestrita. Tenho vontade at&eacute; de ficar por l&aacute;, mas a capital me espera. Minha prima/irm&atilde; conduz o carro e divide comigo hist&oacute;rias, dores, d&uacute;vidas. &Eacute; a paz em pessoa, a pura tradu&ccedil;&atilde;o de uma palavra pouca usada: compaix&atilde;o. Ela me pergunta se toler&acirc;ncia &eacute; defeito e eu respondo que &eacute; virtude. Virtude para poucos, como Adriana.</p>
<p>Em BH troco afetos e experi&ecirc;ncias com dona Teresa, av&oacute; dos meus filhos, amiga do peito e solid&aacute;ria em todos os momentos. Com ela aprendo a arte do sil&ecirc;ncio na hora certa, a doa&ccedil;&atilde;o infinita e a vontade de viver. J&aacute; Tony me ensina que perder os movimentos n&atilde;o significa perder a lucidez. Com apenas o movimento de uma das m&atilde;os, ele acaricia, expressa seu afeto, demonstra entusiasmo e fala das saudades que sente de Campo Grande. Grace e Kl&eacute;ber fazem de cada encontro uma festa, mesmo que haja desencontros e imprevistos pelo caminho.&nbsp; Gilberto faz canjica e Silvana ainda&nbsp;insiste em arrumar matula pra viagem. Aprendo mais um pouco de generosidade&nbsp;e agrade&ccedil;o.</p>
<p>No convite da amiga, L&uacute;cia, acontece a troca do bairro Santo Agostinho por Santa L&uacute;cia, sem&nbsp;perder o foco na ora&ccedil;&atilde;o. &nbsp;Ela me recebe com quarto impec&aacute;vel, travesseiros macios e mordomias cinco estrelas. Trocamos id&eacute;ias, roupas, perfumes e impress&otilde;es e boas risadas. Ela me ensina a rir de mim mesma. E ainda oferece sua generosidade expl&iacute;cita diante das &aacute;guas que deixo cair na x&iacute;cara de caf&eacute;. &nbsp;Ao por do sol medito num banco da Pra&ccedil;a da Liberdade, em meio ao burburinho de crian&ccedil;as, turistas e &aacute;rvores.</p>
<p>De volta pra casa, retribuo o carinho do meu lindo Tom Tom, que driblou a car&ecirc;ncia se instalando na almofada de medita&ccedil;&atilde;o do meu quarto e de l&aacute; s&oacute; sai quando a fome bate. As plantas se ressentiram da minha aus&ecirc;ncia, pe&ccedil;o-lhes desculpas e retomo os cuidados. Meu filho aproveitou o vazio e encheu a casa de novidades. &nbsp;Equipou a cozinha, abasteceu a despensa e a geladeira, mudou alguns detalhes para seu conforto. Tudo &eacute; bom, tudo &eacute; perfeito. E eu agrade&ccedil;o.</p>
<p>Agrade&ccedil;o &agrave;s viagens, o tempo, as pessoas, os amigos e a mim. Por n&atilde;o ter desperdi&ccedil;ado uma gota sequer do que o universo, em sua grandeza e benevol&ecirc;ncia, me deu. Obrigada. Mil vezes obrigada!</p>


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		<title>Santo dia para viver</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Jun 2011 16:30:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theresa Hilcar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica da Semana]]></category>

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		<description><![CDATA[De repente me deu uma n&#227;o vontade de escrever. H&#225; dias venho sentindo isto, esta n&#227;o vontade. O sentimento &#233; de absoluta desimport&#226;ncia, algo como saber que nada do escrevo tem relev&#226;ncia ou algum sentido. Afinal, de que adianta comentar not&#237;cias, por exemplo, se o que vemos e lemos n&#227;o &#233; nada mais sen&#227;o a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De repente me deu uma n&atilde;o vontade de escrever. H&aacute; dias venho sentindo isto, esta n&atilde;o vontade. O sentimento &eacute; de absoluta desimport&acirc;ncia, algo como saber que nada do escrevo tem relev&acirc;ncia ou algum sentido. Afinal, de que adianta comentar not&iacute;cias, por exemplo, se o que vemos e lemos n&atilde;o &eacute; nada mais sen&atilde;o a vers&atilde;o dos fatos? N&atilde;o existe mais informa&ccedil;&atilde;o, apenas uma guerra de lados, de posi&ccedil;&otilde;es. As pessoas, os notici&aacute;rios, falam apenas o que lhes conv&ecirc;m, o que interessa, o que vai gerar algum lucro.</p>
<p>N&atilde;o &eacute; apena&nbsp;uma desilus&atilde;o, mas uma constata&ccedil;&atilde;o, meio tardia &ndash; bem sei &ndash;. Por&eacute;m nunca &eacute; tarde pra se aprender alguma coisa. Posso mesmo ter me desiludido com a profiss&atilde;o de jornalista. H&aacute; tempos n&atilde;o somos mais os formadores de opini&atilde;o, os investigadores de not&iacute;cias. A maioria&nbsp;apenas cumpre o papel &ndash; ainda que na maioria das vezes, med&iacute;ocre &ndash; de reportar not&iacute;cias. Somos meros fabricantes de releases. E quem n&atilde;o compactua com isto est&aacute; fora do mercado.</p>
<p>Mas deixemos o jornalismo de fora disto. Resolvi escrever hoje apenas para falar do meu dia de ontem , um dia glorioso por assim dizer. E para quem, nos &uacute;ltimos tempos vive numa esp&eacute;cie de reclus&atilde;o e sil&ecirc;ncio espont&acirc;neos, o dia foi cheio.&nbsp; Come&ccedil;ou com uma esp&eacute;cie de mea culpa materna, ao perceber que mesmo sem ter consci&ecirc;ncia, passamos nossas afli&ccedil;&otilde;es e medos aos nossos filhos. A medita&ccedil;&atilde;o, felizmente, me fez entender que n&atilde;o existe culpa, mas falsas interpreta&ccedil;&otilde;es. Santa e bela medita&ccedil;&atilde;o!</p>
<p>Quando voltei ao barulho externo, comecei a sentir a solid&atilde;o de mais um dia sem telefonemas, emails, visitas, amigos. Mas antes de entrar no t&uacute;nel escuro &ndash; meu velho conhecido &ndash; meu filho me convida para um cinema. Sem pensar nem um segundo, desmarco a confer&ecirc;ncia via skipe com meu &rdquo;guru&rdquo; e aceito de bom grado o chamamento afetivo. N&atilde;o houve filme &ndash; fila lotada de feriado &ndash; mas houve uma sess&atilde;o de cumplicidade que nenhum diretor de cinema do mundo poderia fazer melhor.</p>
<p>Chego em casa a tempo de conversar com meu mais novo amigo de inf&acirc;ncia, Bhaskar, que conheci na &Iacute;ndia. &nbsp;Ele mora num s&iacute;tio perto de alto Para&iacute;so (GO) e o meio mais eficaz de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; via Internet. Eu falei sobre procrastina&ccedil;&atilde;o e ele respondeu com sabedoria e amor, recomendando mais medita&ccedil;&atilde;o. &ldquo;&Eacute; uma t&eacute;cnica e tem que ser feita todos os dias&rdquo;, disse ele. Prop&ocirc;s uma semana de experimenta&ccedil;&atilde;o. Depois disto, da semana meditando sobre o tema procrastinar, devo ir ao Para&iacute;so. Para mais medita&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>&Agrave; noitinha recebo o telefonema do amigo de conversas pol&iacute;ticas, filos&oacute;ficas e afetivas. Mais de 60 minutos de deleite e saudades. Ele reclama que est&aacute; doente do corpo e eu sugiro reveja a alma. Ou melhor dizendo, o cora&ccedil;&atilde;o. Acho que o medo de amar enfraqueceu o que ele teima de chamar apenas de &ldquo;m&uacute;sculo&rdquo;. Mas nada &eacute; s&oacute; aquilo que parece ser. Falamos, sobretudo da impossibilidade de viver no fluxo, nesta era fren&eacute;tica e materialista. Concordamos com a necessidade de retornar ao princ&iacute;pio de tudo. Ele tem planos de morar num s&iacute;tio e criar galinhas, e eu estou vendo minhas possibilidades.</p>
<p>Arrematando meu dia 13 de junho, vejo filme na TV que corrobora com minhas &uacute;ltimas horas. Um homem que perde tudo, mas n&atilde;o perde a si mesmo. Retorna, pratica a humildade, atravessa humilha&ccedil;&otilde;es e colhe os frutos do medo. No fim, como em quase todos os filmes, tudo se resolve. Vou dormir agradecida e acordo com vontade de falar apenas do que sinto. Dizem que &eacute; o melhor &ndash; e talvez o &uacute;nico &ndash; meio de se voltar a escrever. Falar apenas e t&atilde;o somente o que sentimos. O resto &eacute; fic&ccedil;&atilde;o. Ou ilus&atilde;o.</p>


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		<title>Crônica da semana</title>
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		<pubDate>Mon, 16 May 2011 16:17:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Theresa Hilcar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica da Semana]]></category>

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		<description><![CDATA[A volta do filho pr&#243;digo Ele voltou! Foi encontrado no mesmo lugar onde meses antes eu o achei e levei para casa. Desta vez foi meu filho que, por falta de estacionamento, resolveu parar o carro num lugar distante do banco e, ao voltar deu de cara com ele na cal&#231;ada. Acabara de pular o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size: 14px"><strong>A volta do filho pr&oacute;digo</strong></span></p>
<p>Ele voltou! Foi encontrado no mesmo lugar onde meses antes eu o achei e levei para casa. Desta vez foi meu filho que, por falta de estacionamento, resolveu parar o carro num lugar distante do banco e, ao voltar deu de cara com ele na cal&ccedil;ada. Acabara de pular o muro do edif&iacute;cio e saltou bem na sua frente. Coincid&ecirc;ncias n&atilde;o existem. Ent&atilde;o s&oacute; posso acreditar que foi mesmo o destino. Isto aconteceu h&aacute; uma semana. Eu estava em viagem e n&atilde;o fiquei sabendo de nada. Quando cheguei, ele ainda n&atilde;o estava em casa e eu continuava sem saber do seu paradeiro.&nbsp; Sa&iacute; de casa no s&aacute;bado pensando no meu querido Tom Tom e quase fui atr&aacute;s de um gato que cruzou meu caminho. Mas resisti.</p>
<p>Ao chegar ao apartamento tive a sensa&ccedil;&atilde;o de que ela estava &agrave; minha espera, como era seu costume. Na &aacute;rea de servi&ccedil;o percebi uma gaiola de animais e pacotes de ra&ccedil;&atilde;o. &nbsp;Pensei que Diogo teria arrumado outro gatinho pra substituir Tom Tom. Quando olhei debaixo da mesa de centro ele estava l&aacute;, quietinho, deitado no tapete. Logo de in&iacute;cio n&atilde;o acreditei no que via. Chamei seu nome e ele n&atilde;o fez qualquer men&ccedil;&atilde;o de reconhecer. Cheguei mais perto, toquei-o e finalmente acreditei: era mesmo meu gato desaparecido. Gritei de alegria, corri at&eacute; o quarto do meu filho para confirmar &ndash; era ele mesmo? Sim, embora mais magro, com uma das patas machucadas, era o mesmo Tom Tom.</p>
<p>Confesso que h&aacute; muito tempo n&atilde;o sentia uma alegria t&atilde;o profunda, genu&iacute;na. Aninhei-o no meu colo e conversei longamente com meu fuj&atilde;o. O que teria acontecido com ele nesses 40 dias de aus&ecirc;ncia? Pelos ferimentos pude concluir que ele se meteu em alguma briga de rua. Meu filho me contou que ele n&atilde;o ofereceu qualquer resist&ecirc;ncia quando ele o pegou no colo e levou direto para a veterin&aacute;ria. Devia estar cansado, faminto, quem sabe at&eacute; saudoso de um carinho. E &eacute; o que tenho lhe dado deste que reencontrei meu amiguinho. N&atilde;o me canso de lhe dar beijos, afagar seu pelo macio, conversar com ele em tatibitate, como se fosse um beb&ecirc;.</p>
<p>A todo instante preciso me beliscar para acreditar que ele est&aacute; mesmo de volta. Como senti sua falta! Adoeci de saudades, me recusei a falar dele durante dias. Sua volta me deixou novamente feliz. Ele est&aacute; um pouco diferente, devo confessar. N&atilde;o sei se resultado da cirurgia que meu filho mandou fazer, e que at&eacute; ent&atilde;o n&atilde;o concordava. Afinal, castrar um animal n&atilde;o &eacute; a coisa mais sensata, nem amorosa, nem natural de se fazer. Mas segundo ele &eacute; a &uacute;nica forma de evitar que ele fuja novamente. J&aacute; ouvir dizer que gatos s&atilde;o fieis &agrave;s suas casas, mas n&atilde;o a seus donos. Devo dizer que me sinto um pouco usurpadora do seu direito de ir e vir. Ser&aacute; que ele est&aacute; feliz aqui?</p>
<p>Ou seu lugar &eacute; nas ruas, perto dos amigos, das namoradas, da natureza? H&aacute; momentos que comparo a sua volta como um namorado que foi embora por causa de outra e depois &eacute; for&ccedil;ado a voltar, n&atilde;o sem uma boa dose de resigna&ccedil;&atilde;o. Ou por absoluta falta de op&ccedil;&atilde;o. Nessas horas olho para ele e me pergunto: at&eacute; quando ele vai ficar desta vez? Ser&aacute; que um dia n&atilde;o vai bater a saudade das ruas, seu habitat natural? Ser&aacute; que ele n&atilde;o vai se cansar destas quatro paredes e voltar para o mundo? E mais, ele gosta mesmo de mim ou apenas do conforto que lhe proporciono? Perguntas nunca ter&atilde;o respostas.</p>
<p>Resta apenas curtir os momentos de felicidade que sua linda presen&ccedil;a me proporciona.&nbsp; E, como j&aacute; disse Vin&iacute;cius de Moraes, que nosso amor, posto que &eacute; chama, seja eterno enquanto dure.</p>


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