A cabeça do eleitor
Por Dante Filho*
Recentemente participei de um seminário de marketing político em Campo Grande. Dois palestrantes me chamaram a atenção: o sociólogo Alberto Carlos de Almeida (especialista em pesquisa de opinião e autor de livros famosos sobre o assunto) e o publicitário Chico Santa Rita (que dispensa apresentações).
Ambos falaram as platitudes de sempre. Em momentos separados, insistiram em chamar a atenção sobre como penetrar nos mistérios da alma do eleitor brasileiro. Alberto de Almeida afirmou que os eleitores são “mesquinhos e egoístas”. E Santa Rica insistiu na idéia de que é “preciso compreender o que existe na mente do ‘Zé-Maria’(um personagem que representa o eleitor médio) para ganhar o seu voto”.
Tanto Almeida como Chico tentaram decodificar para a platéia – formada basicamente por jornalistas, publicitários, advogados e assessores políticos – o que acontece na esfera dos desejos e motivações do eleitorado, advertindo que os padrões de pensamento dos chamados formuladores e formadores de opinião representam pouco mais do que uma gotícula neste caudaloso mar de tendências humanas que forma, sedimenta e define o voto no Brasil.
Para os dois especialistas a realidade eleitoral deve ser julgada a partir da premissa de que estamos tratando com uma maioria de semiletrados, desinteressados nas questões estruturais da vida nacional, avesso aos políticos e centrados nos pequenos fatos do cotidiano, tais como os personagens de novelas, o preço do arroz e do feijão, as celebridades momentâneas, os modismos etc e tal.
O eleitor médio é manco em termos educacionais. Embora – reconhecidamente – venha se tornando uma presa cada vez mais difícil de ludibriar porque o nível de comunicação de massa atingiu um nível inédito de sofisticação no Brasil, o que exige, como contrapartida, um padrão equivalente de emissão de mensagens para seduzir e conquistar a maioria dos cidadãos.
Segundo Alberto de Almeida as pesquisas de opinião sobre preferências eleitorais no momento têm reduzido impacto na formação do voto porque elas apenas interessam ao mundinho político. “Atualmente quase 70% dos eleitores nem sabem que haverá eleição presidencial no Brasil este ano”, afirmou, para minha surpresa, e, certamente, para a de todos que faziam parte do público do seminário.
Ainda assim, estratificando por tendência, de acordo com seus levantamentos, o Brasil tem 30% de eleitores simpáticos ao PT, 25% de anti-PT, e uma margem movediça de 45% que pode estar de ambos os lados à medida que a campanha seja encorpada. Estes são os eleitores que elegerão o próximo presidente da República.
Chico Santa Rita, por sua vez, comentou algo óbvio, mas que é pouco considerado pelas camadas mais intectualizadas da sociedade: o “Zé-Maria” não lê jornais, não analisa contexto, não se importa com posições ideológicas; ou seja, o eleitor médio é um sujeito politicamente instintivo, que age pelos critérios do “gosto” e “não gosto” e que, dessa maneira, define sua escolha, geralmente nas semanas próximas que antecedem o pleito.
Diante disso, percebe-se que os operadores da política estão cada vez mais ressentidos com o fato de que, a cada eleição, há que se percorrer cada vez mais uma escala de maior esforço para influir sobre a cabeça do povão e ganhar seu voto.
Os marqueteiros parecem estar sofrendo. Por baixo da ideia de se compreender a cabeça do eleitor, eles manifestam certo incômodo em relação a esse ser cada vez fluido e difuso, que aos poucos está descobrindo artifícios para esconder o jogo até o último momento.
Por isso, o trabalho da marquetagem tem que ser cada vez mais oneroso: é preciso cruzar dados de pesquisa, adivinhar tendências, perceber alterações nos focos de interesse, massificar informações e, no final, vender o “produto-ideia” numa embalagem glamorosa que pode dar certo em determinado momento e errado em outro.
Descobre-se, então, que tudo isso não tem nada a ver com uma realidade cristalizada – ou uma versão inteligente dela. O conceito essencial é mostrar ao eleitor que ele, no fim das contas, “terá mais dinheiro no bolso” se votar neste ou naquele candidato. Só uma minoria específica (cerca de 5% dos eleitores) escolhe um candidato a presidente com motivações de cunho conceitual ou ideológico. A grande massa, em período eleitoral, pergunta cada vez mais: “o que eu vou ganhar com isso?”
Concordo com quase tudo que Alberto e Santa Rita falaram em suas palestras. Só tenho uma dúvida: até que ponto a dinâmica social – muitas vezes inapreensível e surpreendente – foge ao script e surpreende a arrogância de seus supostos entendedores? Tanto isso persiste no somatório geral das análises que ambos não se arriscaram a dizer quem tem maior chance de se eleger presidente nas próximas eleições. Eles repetem o famoso chavão da “disputa apertada”, da “guerra feroz entre PT e PSDB” e assim por diante.
As dúvidas que cercam este jogo sucessório são maiores do que as certezas absolutas. E talvez o motivo para isso seja simples e corriqueiro: esse eleitor “mesquinho e egoísta”, inculto e desinformado, nos últimos tempos está se transformando numa antena poderosa à medida que mudou de patamar de consumo, adquirindo mais televisores e computadores, acessando mais e mais a internet (cerca de 60 milhões de usuários), ouvindo mais e sabendo (mesmo que de maneira enviesada) mais das coisas da vida e do mundo.
Ninguém ainda sabe ao certo como vão consolidar as tendências eleitorais daqui pra frente: este fenômeno de crescimento da massa de consumidores no Brasil pode estar formando a base de um novo modelo de cidadania.Trata-se das influências diretas da consolidação de uma economia voltada para a prestação de serviços, fugindo dos padrões convencionais que ditam os manuais dos economistas. Não há como saber qual a velocidade desse processo, em que uma pessoa deixa de ser um “Zé-Maria” e passa a ser um agente transformador do mundo à sua volta, pelo menos na hora da eleição. Quais as apostas que eles farão em outubro deste ano? Dúvidas, dúvidas, dúvidas…
*jornalista e escritor

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